Por Thiago Crucciti, diretor da ONG Visão Mundial
O que está acontecendo no Rio de Janeiro nos últimos dias é mais do que uma operação policial, é um colapso humanitário. Entre helicópteros, blindados e confrontos, há uma cena que não sai da cabeça de quem a vê ou imagina: crianças e adolescentes caminhando pelas vielas da Penha e do Alemão ao lado de corpos cobertos por lençóis, reconhecendo familiares e vizinhos, levando-os com as próprias mãos até os institutos médicos-legais mais próximos.
A tragédia é tamanha que já se fala em um número de mortos superior ao do Carandiru, e mais uma vez o que fica em pedaços não são apenas as casas e as ruas: é a infância. Quando uma criança vê o corpo de um amigo tombar, quando ouve gritos de desespero ecoando na rua que antes era campo de futebol improvisado, algo dentro dela se quebra de modo irreversível. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Anuário 2024), 6.197 pessoas morreram em decorrência de intervenções policiais no país em 2023, sendo 16% delas com menos de 19 anos. Esses números revelam o quanto a violência tem atravessado a infância brasileira.
Como esperar que essa criança volte à escola na próxima semana, abra o caderno e preste atenção na lição de português? Como exigir que ela sonhe com o futuro quando o presente é atravessado pela imagem de um corpo no chão e pelo medo de não voltar viva para casa? Não há como existir plenitude onde há trauma, e não há futuro possível quando a infância é sequestrada pela violência. De acordo com o UNICEF (2023), quase 40% dos alunos em áreas de conflito armado urbano no Rio de Janeiro relataram medo constante de frequentar a escola, o que compromete o aprendizado e o convívio social.
Essas cenas expõem uma ferida antiga e profunda. O que estamos vendo é resultado de séculos de desigualdade, racismo estrutural e abandono institucional. As comunidades que hoje vivem essa tragédia são as mesmas que há décadas convivem com a ausência do Estado nos momentos em que mais precisam dele, e com a presença violenta quando o Estado decide aparecer. Para essas famílias, a noção de cidadania nunca chegou de forma concreta. A única constância é o medo. Segundo o IBGE (PNAD Contínua, 2024), mais de 40% dos jovens de 15 a 29 anos nas periferias do país vivem em domicílios sem acesso regular a serviços públicos essenciais, o que evidencia essa ausência histórica.
Não se trata de defender criminosos, mas de lembrar que há inocentes, há crianças, há vidas inteiras que não podem ser reduzidas a “efeitos colaterais” de uma operação. Quando a política de segurança pública falha em proteger quem mais precisa, ela não é política: é omissão. E quando o olhar coletivo se acostuma com corpos expostos no asfalto, o país inteiro adoece. O Ipea apontou em 2023 que apenas 12% dos municípios brasileiros possuem políticas estruturadas de atendimento psicossocial a crianças e adolescentes expostos à violência, mostrando a negligência com o trauma que permanece.
O que o Brasil está vendo hoje no Rio de Janeiro é a infância sendo ferida diante das câmeras. E não se trata apenas de um episódio isolado. É a repetição de um padrão que se renova a cada nova operação: comunidades sitiadas, escolas fechadas, famílias em pânico, e um silêncio que se impõe depois que a poeira baixa. Mas o trauma não baixa. Ele fica. Ele molda o olhar de uma geração inteira. De acordo com pesquisa da Fiocruz (2022), crianças expostas a conflitos armados urbanos têm até três vezes mais chances de desenvolver transtornos de ansiedade e depressão do que aquelas que vivem em regiões pacificadas.
Precisamos agir agora. E agir significa garantir proteção, acolhimento e cuidado psicológico para essas crianças e adolescentes. Significa investir em educação, cultura e políticas públicas que devolvam a elas o direito de viver a infância, o mais básico e inegociável dos direitos. Significa olhar para essas comunidades com empatia e urgência, e não com o distanciamento de quem vê o sofrimento dos outros pela televisão.
Essas crianças não são estatísticas, são o futuro do país. E o futuro, agora, está sendo traumatizado. O que faremos com isso? Fingir que não vemos, ou reconstruir com urgência o que ainda é possível salvar? O que está em jogo é a vida plena dessas crianças e, junto dela, a nossa humanidade. Quando o chão da infância se cobre de corpos, o futuro do Brasil desaba junto. E reconstruí-lo depende de cada um de nós.
Carol Montuori





