A exposição itinerante World Press Photo 2026, que fica em cartaz na CAIXA Cultural Rio de Janeiro até 28 de junho, reúne projetos fotográficos que escancaram as contradições na forma como a humanidade se relaciona com a vida selvagem. Entre cenas de extermínio e iniciativas de preservação, as imagens colocam em evidência disputas éticas, ambientais e políticas que atravessam diferentes regiões do mundo.
Entre os destaques está a fotografia “Quando os Gigantes Caem”, de Halden Krog, produzida para o Daily Mail, que documenta o abate de uma família de elefantes na Savé Valley Conservancy, no Zimbábue, em outubro de 2025. A ação faz parte de uma política governamental de controle populacional que, apenas naquele ano, autorizou a morte de 50 animais após uma operação ainda maior realizada no ano anterior.
A medida, defendida pelas autoridades como necessária diante do aumento da população de elefantes e da intensificação dos conflitos com comunidades humanas, é fortemente contestada por organizações ambientais. Especialistas alertam para os impactos do abate na estrutura social dos elefantes, animais altamente inteligentes e sociais, além do trauma causado nos sobreviventes, que pode agravar comportamentos agressivos e ampliar ainda mais os conflitos com humanos.
Também abordando práticas de exploração e transição cultural, o projeto “Os Últimos Caçadores de Golfinhos”, de Matthew Abbott, acompanha a comunidade de Fanalei, nas Ilhas Salomão, onde a caça de golfinhos desempenha papel central na subsistência e nas tradições locais há gerações. Os dentes dos animais, por exemplo, são utilizados em rituais e trocas comunitárias.
Em contraste com essas narrativas, o projeto “Morador da montanha de Wanglang”, de Rob G. Green, traz um exemplo de conservação bem-sucedida. A imagem de um panda-gigante registrada por armadilha fotográfica na Reserva Natural Nacional de Wanglang, na China, simboliza os esforços contínuos para proteger uma das espécies mais ameaçadas do planeta.

Com menos de 2.000 indivíduos vivendo na natureza, o panda é um ícone global da preservação ambiental. A reserva, criada em 1965, desempenha papel fundamental dentro do sistema do Parque Nacional do Panda-Gigante, sendo referência em pesquisa científica e cooperação internacional. O registro foi possível por meio de um programa de intercâmbio entre a National Geographic Society e biólogos locais, voltado ao monitoramento da vida selvagem.
World Press Photo
Os projetos premiados pelo Concurso Cultural World Press Photo transcendem a mera documentação, oferecendo um poderoso registro visual de conflitos globais que vão desde os Estados Unidos e a Ucrânia até ao Nepal, Paquistão e Palestina. Mais do que registrar eventos, as imagens destacam o impacto da crise climática de Los Angeles às Filipinas, México e Noruega, ao mesmo tempo que joga luz sobre a ação cívica e a luta pelos direitos através de imagens de protestos nos Estados Unidos e movimentos de mulheres na Guatemala e no Quênia.
Íntimas e muitas vezes comoventes, as obras revelam a fragilidade da vida humana que vão da doença e o isolamento ao luto e à sobrevivência. Em paralelo, a mostra conta histórias das gerações mais jovens, desde bailarinas de ballet na África do Sul a mulheres cavaleiras em Marrocos, e o drama de famílias afetadas pela aplicação da lei de imigração nos Estados Unidos. Os retratos ambientais aproximam os espectadores da natureza de forma impressionante e realista.
Brasil
Dois fotógrafos brasileiros estão entre os premiados da América do Sul no World Press Photo 2026. Na categoria Individual da América do Sul, Priscila Ribeiro foi reconhecida pela imagem Um Território de Esperança, que registra a cena de uma avó, Sandra Mara Siqueira, e seus netos, na cidade de Colombo, Paraná, na ocupação do Parque dos Lagos que abriga 200 famílias. O projeto denuncia a situação de milhões de brasileiros que não têm acesso a moradias seguras, com um déficit nacional de 5,9 milhões de casas, o que força aproximadamente 16,4 milhões de pessoas a viverem em assentamentos informais sem acesso oficial à água, saneamento básico ou eletricidade.
Na categoria Reportagem, o fotojornalista Eduardo Anizelli foi vencedor com o projeto Aqueles Que Carregam os Mortos. Em 10 imagens, o fotojornalista registra o resultado da enorme operação policial, em outubro de 2025, contra uma das maiores organizações criminosas do país, realizada nas favelas do Complexo do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. Mobilizando um número recorde de 2.500 policiais, entre civis e militares, a operação foi a mais letal da história do Brasil. Das 122 pessoas mortas, a grande maioria era afro-brasileira. Após a operação, as autoridades não enviaram equipes forenses, obrigando a comunidade a arcar com o peso físico e emocional de carregar seus próprios mortos.
Concurso
Desde 1955, o Concurso Anual World Press Photo reconhece e celebra o melhor do fotojornalismo e da fotografia documental produzidos ao longo do último ano. A edição de 2026 adota uma estrutura regional, com seis regiões globais: África; América do Norte e Central; América do Sul; Ásia Ocidental, Central e Sul Asiático; Ásia-Pacífico e Oceania; e Europa.
Os vencedores do Concurso de 2026 são os melhores entre as 57.376 fotografias apresentadas por 3747 fotógrafos de 141 países. As inscrições são julgadas e premiadas de acordo com a região onde as fotografias e histórias foram produzidas — e não pela nacionalidade do fotógrafo. Cada região contempla três categorias baseadas em formato: Individual (Singles), Reportagem (Stories) e Projetos de Longo Prazo (Long-Term Projects).
O modelo de concurso regional, lançado em 2021, promove uma maior diversidade de histórias e de narradores de todo o mundo. Este ano, 31 dos 42 vencedores são originários da região que fotografaram. Em comparação com o Concurso de 2025, houve um aumento de 11% no número de participantes da América do Sul e de 14% na Ásia-Pacífico e Oceania. As mulheres e os fotógrafos não binários representaram também 22% das candidaturas ao concurso. Isto reflete um aumento constante desde que o modelo de concurso regional foi introduzido.
A exposição no Brasil é patrocinada pela CAIXA e Governo do Brasil. A organização sem fins lucrativos Repórteres Sem Fronteiras (RSF) é correalizadora da programação paralela da World Press Photo.
Serviço:
Exposição: World Press Photo 2026
Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Unidade Passeio
Período: até 28 de junho de 2026
Endereço: R. do Passeio, 38 – Centro, Rio de Janeiro – Próximo à estação Cinelândia do Metrô
Horário de visitação: Terça a sábado: das 10h às 20h / Domingos e feriados: das 11h às 18h.
Entrada gratuita
Classificação etária: 12 anos
Mais informações: https://www.caixacultural.gov.
Importante: A exposição terá visitas mediadas com Libras e todas as imagens contarão com audiodescrição.
Para mais informações:
Ana Paula Nunes
Ana Claudia Gomes




