Singapura aprova primeiro bife bovino cultivado fora de Israel; queda nos custos e avanço dos biorreatores indicam que tecnologia começa a deixar os laboratórios
A carne cultivada em laboratório, produzida a partir de células animais sem a necessidade de abate, acaba de alcançar um novo marco internacional. No início de agosto, a Singapore Food Agency autorizou a comercialização do Cultivated Thin-Cut Steak, da Aleph Farms. Trata-se da primeira aprovação de carne bovina cultivada fora de Israel e a segunda no mundo nessa categoria.
Feito a partir de células bovinas e combinado a uma base de proteína vegetal, o bife deverá chegar inicialmente a restaurantes de Singapura no primeiro semestre de 2027. A autorização reforça o avanço de uma tecnologia que, até poucos anos atrás, parecia restrita aos laboratórios e agora começa a se aproximar do prato do consumidor.
A corrida por novas formas de produzir proteína ocorre em meio a dois grandes desafios globais: alimentar uma população crescente e reduzir os impactos ambientais da produção de alimentos. A ONU projeta que a população mundial chegará a cerca de 9,7 bilhões de pessoas em 2050, ampliando a pressão sobre os sistemas alimentares. Ao mesmo tempo, a pecuária está associada a emissões de gases de efeito estufa, uso de água e solo e ao consumo de antimicrobianos, fatores que têm impulsionado pesquisas sobre formas complementares de produção de proteína animal.
“Quando falamos em carne cultivada, a questão começa a deixar de ser ‘se’ essa tecnologia fará parte do nosso dia a dia e passa a ser ‘quando’. O crescimento da população mundial e a necessidade de ampliar a produção de proteínas com menor impacto ambiental estão acelerando a busca por novas alternativas. A carne cultivada permite produzir alimento a partir da multiplicação de células animais, reduzindo a dependência do abate e abrindo novas possibilidades para uma cadeia de produção mais eficiente”, afirma Jayme Nunes de Souza Filho, da Loccus, empresa brasileira especializada em soluções para biotecnologia e diagnóstico molecular.
O avanço ocorre enquanto a indústria tenta superar um dos principais obstáculos à popularização desses alimentos: o preço. Uma análise da consultoria Arthur D. Little, repercutida pelo FoodNavigator em julho, estima que o custo do produto acabado esteja atualmente em torno de € 40 por quilo e possa se aproximar de € 10 por quilo até o fim da década. Abaixo desse patamar, algumas categorias de carne cultivada poderiam começar a competir comercialmente com a carne convencional.
A redução de custos depende, em grande medida, da capacidade de levar o cultivo celular para volumes cada vez maiores. Nesse processo, biorreatores, meios de cultura e sistemas de controle ganham importância: são eles que permitem criar e manter as condições necessárias para que as células se multipliquem de maneira controlada e, futuramente, em escala industrial. O desafio deixa, portanto, de estar apenas na ciência por trás da carne cultivada e passa também pela engenharia necessária para transformar uma tecnologia de laboratório em um processo produtivo economicamente viável.
Para o Brasil, o avanço desse mercado abre uma discussão que vai além da chegada de um novo alimento ao consumidor. Como uma das principais potências mundiais na produção de proteína animal e com uma cadeia relevante de biotecnologia e equipamentos, o país pode acompanhar a carne cultivada não apenas sob a perspectiva do consumo, mas também das oportunidades de desenvolvimento tecnológico, fornecimento de soluções e participação em uma nova cadeia industrial
Como uma célula vira carne?
A lógica da carne cultivada começa com células de origem animal. Em vez de crescerem no organismo, elas são colocadas em um ambiente controlado, recebem nutrientes e se multiplicam até formar o tecido que dará origem ao alimento. Boa parte desse processo acontece dentro de biorreatores — equipamentos que controlam fatores como temperatura, oxigenação, pH e agitação para criar condições adequadas ao crescimento celular.
É uma lógica semelhante à empregada há décadas em diferentes processos biotecnológicos. A dificuldade está em transformar um cultivo celular de laboratório em uma produção capaz de gerar grandes volumes de alimento com regularidade, segurança e custo competitivo.
A indústria já demonstrou processos em estruturas de cerca de 20 mil litros, aproximando a tecnologia de escalas utilizadas em setores como os de bebidas, laticínios, medicamentos e biotecnologia. Ao mesmo tempo, avanços na formulação dos meios de cultivo que alimentam as células, no aumento da densidade celular e na capacidade dos biorreatores vêm ajudando a reduzir os custos.
Mas produzir mais também aumenta o tamanho do risco. Em um biorreator com milhares de litros, uma contaminação identificada tarde pode significar a perda de um lote inteiro e de insumos de alto valor.
“Quanto maior a escala, maior é o impacto potencial de uma contaminação. O desafio passa a ser acompanhar o processo em tempo real, verificando se as células mantêm as características esperadas e se o cultivo permanece dentro dos parâmetros de segurança”, explica Nunes.
Nesse ponto, técnicas de biologia molecular podem ser utilizadas para monitorar a identidade das células e detectar microrganismos ou alterações durante a produção. A rapidez das análises ganha importância porque, em processos industriais contínuos, esperar dias por um resultado pode manter em funcionamento um cultivo potencialmente inapropriado.
E o Brasil?
Embora a carne cultivada ainda não esteja disponível para consumo no país, o Brasil já possui um caminho regulatório para que produtos desse tipo sejam avaliados. Em 2023, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a RDC nº 839, que incluiu alimentos e ingredientes obtidos a partir de culturas de células ou tecidos entre as categorias contempladas pelo marco regulatório de novos alimentos.
A regulamentação prevê a apresentação de informações sobre origem e manutenção das linhagens celulares, processo de fabricação, composição dos meios de cultivo e características nutricionais, entre outros dados necessários para a avaliação de segurança.
Isso não significa, porém, que a carne cultivada esteja automaticamente liberada no Brasil. Cada produto precisa ser submetido à avaliação regulatória antes de chegar ao mercado.
Para um dos maiores produtores e exportadores de proteína animal do mundo, a entrada nessa nova cadeia pode ir além de colocar um bife cultivado nas prateleiras. Há espaço para o desenvolvimento de biorreatores, reagentes, métodos de análise, meios de cultivo, linhagens celulares e tecnologias de controle de qualidade.
Os obstáculos ainda são relevantes. Além de reduzir custos, a indústria precisa ampliar a produção sem perder controle sobre o processo, atender às exigências regulatórias e conquistar a confiança do consumidor.
Por isso, os primeiros produtos a alcançar mercados como o brasileiro podem não se parecer com um corte tradicional produzido integralmente a partir de células. Uma das possibilidades são os alimentos híbridos, que combinam uma parcela de células animais cultivadas com ingredientes vegetais — estratégia já utilizada no produto autorizado em Singapura.
Mais do que reproduzir um bife sem criar um boi inteiro, portanto, a corrida pela carne cultivada envolve uma questão essencialmente industrial: descobrir como transformar células em alimento de maneira previsível, segura e barata o suficiente para chegar à mesa de milhões de pessoas.
Sobre a Loccus
A Loccus é uma empresa brasileira especializada no desenvolvimento de soluções para biologia molecular, diagnóstico e automação laboratorial. Com foco em inovação científica e tecnológica, fornece equipamentos, reagentes, kits e sistemas automatizados para laboratórios, hospitais, universidades, centros de pesquisa e indústrias em todo o país. A companhia desenvolve soluções voltadas ao diagnóstico molecular, genômica, biotecnologia e extração automatizada de DNA e RNA, contribuindo para ampliar a precisão, a segurança e a agilidade dos processos laboratoriais, além de apoiar iniciativas que fortalecem o acesso ao diagnóstico no Brasil.




