Médico transforma ultrassom em linguagem artística no Museu Inimá de Paula

Durante anos, o médico Gui Mazzoni trabalhou com ultrassonografia dentro dos protocolos clínicos da medicina baseada em evidências. O exame que revela órgãos, músculos e artérias sempre esteve associado ao diagnóstico. Mas, paralelamente à prática médica, havia outra pergunta em curso: o que mais pode existir nessa imagem além da função técnica?

A resposta começou a tomar forma há mais de uma década, quando Mazzoni decidiu subverter o método ultrassonográfico e utilizar o equipamento não como ferramenta médica, mas como instrumento de criação. Nascia ali a sonofotografia — técnica desenvolvida pelo artista que transforma o ultrassom, som inaudível ao ouvido humano, em imagem.

Em cartaz no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte, a exposição ECOTOPIA, com curadoria de Eder Chiodetto, apresenta 34 obras resultantes dessa pesquisa. São trabalhos produzidos a partir do próprio corpo do artista, que desliza o transdutor sobre a pele como se fosse um pincel, criando autorretratos sonoros.

Ao contrário do uso clínico, em que o objetivo é precisão e padronização, Mazzoni conduz o equipamento por trajetórias livres, rompendo com os protocolos aprendidos na medicina. O que antes era exame torna-se gesto. O que era laudo se transforma em composição visual.

Grande parte das obras da mostra surge também de processos inesperados. Um “erro” no tratamento digital das imagens, longe de ser descartado, tornou-se matriz para novas criações. Para o artista, o erro não é falha, mas possibilidade. A partir dele, novas visualidades emergem.

Formado em Medicina pela UFMG, com mestrado e doutorado na área da Saúde da Mulher e especialização em ultrassonografia, Mazzoni construiu carreira sólida como médico e professor. A arte, no entanto, sempre esteve presente. Filho de fotógrafo, cresceu entre câmeras e imagens. A sonofotografia representa, hoje, a convergência entre esses dois universos.

A pesquisa parte de uma constatação simples e radical: nossos sentidos são limitados. O ultrassom está além da faixa audível ao ser humano. Ao traduzi-lo visualmente, o artista propõe uma ampliação da experiência sensorial e questiona a própria noção de realidade.

Em ECOTOPIA, o corpo deixa de ser apenas organismo e passa a ser território de energia, vibração e linguagem. As obras impressas em papel algodão, tecido e estruturas em backlight revelam paisagens internas que não se apresentam como fotografia tradicional, nem como pintura ou desenho. São resultado de um processo híbrido que cruza física do som, tecnologia e poética.

A exposição reafirma a singularidade da pesquisa de Gui Mazzoni e posiciona a sonofotografia como uma linguagem autoral no campo da arte contemporânea brasileira.


SERVIÇO

ECOTOPIA – Gui Mazzoni
Curadoria: Eder Chiodetto
Museu Inimá de Paula
Rua da Bahia, 1201 – Centro – Belo Horizonte
Até 8 de março de 2026
Entrada gratuita

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